O Seguro Garantia promete ser o grande protagonista em 2023, de acordo com a opinião de Carlos Eduardo Staudacher Leal de Carvalho, sócio de seguros do Toledo Marchetti, publicada pelo Valor nesta terça-feira (22). A partir do próximo ano, as seguradoras vão precisar ficar atentas a recente Circular Susep nº 662/2022, que trouxe significativas modificações em relação à regulamentação anterior.
“Muito embora a própria Circular Susep nº 662 preveja que, no caso de seguros vultosos – isto é, seguros com limite máximo superior a R$ 15 milhões ou cujos tomadores possuam, no exercício anterior à contratação, ativos superiores a R$ 27 milhões ou faturamento bruto anual acima de R$ 57 milhões (Resolução CNSP nº 407/2021) -, é facultativa a adoção de grande parte das regras da nova regulamentação (parágrafo único do artigo 34); espera-se que o mercado segurador, que não costuma se preparar com antecedência, encampe as novidades nos contratos celebrados a partir de 2023, ao menos por período relativamente longo”, comentou Carlos.
Além disso, a administração pública e os diversos players do mercado de infraestrutura devem ter dificuldades para lidar com um número grande de clausulados, estabilizando-se a prática, que já se encontra sedimentada, de utilização de textos contratuais conforme diretrizes regulamentares.
E as novidades trazidas pela atual regulamentação são consideráveis. O processo de subscrição de riscos, por exemplo, deverá ser amplamente reavaliado pelas seguradoras, com reflexos para o mercado de infraestrutura, pois o seguro passa a ter um vínculo umbilical com o contrato principal, cujas obrigações são garantidas.
Necessitando respeitar as “características, dispositivos e legislação específica” aplicável ao contrato principal, o seguro será celebrado e, portanto, interpretado à luz desse contrato, uma vez que ele deverá ser considerado pela seguradora inclusive para a definição do clausulado do seguro (parágrafo único do artigo 4º).
A nova regulação vai muito além, ademais, tornando o seguro-garantia uma espécie de seguro “all risks”, com cobertura abrangente, para todos os riscos exceto aqueles expressamente excluídos na apólice. Isso porque a Circular, no parágrafo único do artigo 5º, dispõe que “[n]a hipótese de o seguro garantia não garantir todas as obrigações do objeto principal, a apólice deverá destacar esta informação”, descrevendo, “de forma clara e objetiva, as exatas obrigações garantidas”.
O processo de subscrição de riscos deverá antever, ainda, algumas alterações no contrato principal ao longo de sua execução, pois, conforme dispõe o artigo 11º da Circular, a seguradora deverá acompanhar tais modificações, adaptando a apólice, “caso tenham sido previamente estipuladas no objeto principal, em sua legislação específica ou no documento que serviu de base para a aceitação do risco pela seguradora”.
As modificações do contrato principal, aliás, mesmo que não comunicadas à seguradora, não mais poderão fundamentar recusas de pagamento de indenização, caso não fique cabalmente demonstrado que agravaram o risco garantido pelo seguro (parágrafo 2º do artigo 11). Ou seja, para se desobrigar da indenização, a seguradora deverá provar que a alteração no contrato, que não lhe foi comunicada, implicou alteração substancial, extraordinária e duradoura no risco, sendo ela, a alteração, a causa do inadimplemento do tomador (parágrafo 2º, “a”, do artigo 11).
Além dos impactos que a nova regulamentação do seguro-garantia causará já no primeiro dia de 2023, pouco meses depois, em abril, terminará o período de transição previsto na Lei nº 14.133/2021, a nova Lei de Licitações, que vem permitindo que a administração pública utilize a antiga legislação para licitações.
A partir de abril, portanto, ficará integralmente revogada a Lei nº 8.666/1993, devendo a administração pública valer-se unicamente da Lei nº 14.133/2021, que trouxe modificações relevantes, devendo afetar consideravelmente a operação do seguro-garantia.
Além de ter aumentado o limite da garantia para 30% do valor do contrato, a lei prevê a possibilidade de a seguradora, caracterizado o sinistro, exercer o chamado “step-in”, ou seja, retomar a obra pública no lugar do tomador inadimplente, prática que, embora não constitua propriamente uma novidade, é bastante rara do país.
O fato de a nova legislação prever que, caso não exercida a retomada, a seguradora deverá pagar a “importância segurada indicada na apólice” (artigo 102, parágrafo único, inciso II); aliado ao estímulo que se espera de adoção do limite de 30% do contrato – como proteção importante para a administração pública, diante das centenas de obras paralisadas no país -, deverá catalisar o fortalecimento de parcerias entre os players do setor de infraestrutura e do mercado segurador (consideradas também as contragarantias para resguardo de eventual ressarcimento em caso de sinistro); pois, como já destacou Modesto Carvalhosa, no seguro-garantia “a sinistralidade perseguida como condição à emissão da apólice deve ser zero”.
Por fim, Carlos destacou que considerado o relevante papel que o seguro-garantia exerce, é enorme o desafio que se avizinha para setor de infraestrutura, devendo ser reavaliada sua relação com o mercado de seguros, ambos de mãos dadas para o desenvolvimento nacional.
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