August 3, 2026
Por Isabela Zampiron | Seguro Gaúcho
Os cancelamentos recentes de apresentações de Harry Styles, em São Paulo, e de Bad Bunny, na Itália, voltaram a chamar atenção para um tema que costuma passar despercebido pelo público: a gestão de riscos por trás de grandes produções de entretenimento. Enquanto o show do cantor britânico foi cancelado por problemas de saúde do artista, a apresentação do porto-riquenho foi interrompida por conta de uma tempestade severa que atingiu a região. Dois episódios, duas causas distintas — mas que expõem uma mesma vulnerabilidade financeira: o que acontece quando um evento de grande porte simplesmente não pode acontecer.
Para entender como o mercado segurador trata esse tipo de risco, Seguro Gaúcho conversou com Ricardo Minc, diretor de Esportes, Mídia e Entretenimento da Howden Brasil, corretora global especializada em seguros de alta complexidade.
Riscos parecidos, coberturas diferentes
Segundo Minc, apesar de os dois casos terem resultado no mesmo desfecho — o cancelamento do evento —, eles envolvem naturezas de risco distintas e, normalmente, demandam coberturas específicas. Quando o problema é a ausência do artista por doença ou acidente, entra em cena o chamado seguro de Non-Appearance (não comparecimento), que protege as perdas decorrentes da falta de uma pessoa essencial ao evento. Já quando o cancelamento decorre de condições climáticas adversas — tempestades, ventos fortes, descargas elétricas —, a proteção costuma estar ligada a coberturas de cancelamento de eventos e de eventos climáticos, desde que previstas na apólice.
"Em ambos os casos, o objetivo é proteger o interesse financeiro do organizador, mas a origem do risco e a forma de estruturação da cobertura são diferentes", explica o executivo.
Um risco conhecido, mas que ainda exige atenção
Para Minc, os episódios recentes não trazem uma novidade para o setor, mas reforçam um alerta já conhecido pelo mercado: a importância de estruturar corretamente as apólices para eventos de grande porte. Segundo ele, essas produções envolvem uma cadeia complexa de contratos e custos, e o impacto financeiro de um cancelamento pode variar bastante dependendo da causa — seja pela perda dos custos de produção, pela obrigação de pagar o cachê do artista ou pela perda da receita esperada. "Casos como esses ajudam a ampliar a conscientização sobre a necessidade de analisar cada evento de forma individualizada", afirma.
Como funciona o seguro de Non-Appearance
A cobertura de Non-Appearance protege o organizador quando uma pessoa considerada essencial para a realização do evento — como o artista principal — não pode comparecer por motivos previstos na apólice, como doença, acidente ou outros impedimentos cobertos. Dependendo da estrutura contratada, a indenização pode incluir custos de produção já incorridos, despesas irrecuperáveis e, em alguns casos, até o lucro líquido esperado, desde que essa proteção tenha sido contratada e devidamente comprovada. O valor pago considera o prejuízo econômico efetivamente sofrido, descontando eventuais valores recuperados por meio de contratos, reembolsos ou despesas que deixaram de ser realizadas.
Esse tipo de seguro costuma ser contratado em eventos de grande porte — shows, festivais, eventos esportivos, feiras e congressos — que envolvem investimentos relevantes e têm como elemento central a participação de um artista ou outro profissional indispensável. As apólices podem cobrir cancelamento, não comparecimento, condições climáticas adversas, impossibilidade de uso do local, falhas de infraestrutura e ordens de autoridades, entre outros riscos contratados. Já situações não previstas na apólice, descumprimentos contratuais e atos intencionais normalmente ficam fora da cobertura — o que reforça, segundo Minc, a importância de uma análise detalhada das condições contratuais.
Mercado brasileiro em maturação
De acordo com o executivo, a contratação desse tipo de seguro já é bastante comum nos grandes eventos brasileiros, especialmente os que envolvem artistas internacionais, investimentos elevados e múltiplos patrocinadores. Ainda há espaço para crescimento entre produções de menor porte, mas o mercado nacional vem amadurecendo à medida que produtores e investidores passam a reconhecer a importância da proteção financeira diante de riscos que podem comprometer toda a operação.
O tamanho do prejuízo em um cancelamento de última hora
Quando um show de grande porte é cancelado às pressas, os impactos financeiros podem ser expressivos. Além do cachê do artista, entram na conta custos com montagem de estrutura, aluguel do local, equipamentos de som e iluminação, equipes técnicas, segurança, logística, hospedagem, publicidade e diversos fornecedores. Minc lembra que, em muitos casos, parte dessas despesas já foi integralmente realizada e não pode ser recuperada — e que, dependendo das circunstâncias, ainda pode haver perda de receita e de lucro esperado pelo organizador. "Cada evento exige uma análise específica da sua exposição financeira para que o valor segurado reflita efetivamente os riscos envolvidos", diz.
Clima extremo, um risco em ascensão
Tempestades severas como a que atingiu a Itália durante a apresentação de Bad Bunny têm recebido atenção crescente nos processos de gestão de riscos e na estruturação de programas de seguros para eventos. Independentemente do debate sobre o aumento de frequência ou intensidade desses fenômenos, Minc observa que produtores e seguradoras vêm dedicando mais atenção ao planejamento de contingências, protocolos de segurança e avaliação das exposições climáticas — principalmente em eventos ao ar livre.
A recomendação para produtoras brasileiras
Ao final, o diretor da Howden Brasil deixa um recado a quem organiza grandes eventos no país: o seguro deve ser estruturado a partir da real exposição econômica da produção, e não apenas do valor do cachê do artista. Isso significa mapear todos os custos irrecuperáveis, entender as responsabilidades previstas nos contratos com artistas, fornecedores e patrocinadores, e avaliar a conveniência de incluir também a proteção do lucro esperado. "A contratação deve ser feita com antecedência e integrada ao planejamento do evento, permitindo que as coberturas sejam ajustadas às características específicas da produção", conclui Minc. "Uma análise técnica adequada contribui para que, em caso de cancelamento, o organizador tenha uma proteção compatível com o impacto financeiro efetivamente suportado."
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