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Só seguro não resolve

Quando se lê que, no ano passado, os eventos de origem climática foram os maiores responsáveis pelas inden ...



Geral
February 1, 2016



Quando se lê que, no ano passado, os eventos de origem climática foram os maiores responsáveis pelas indenizações pagas pelas seguradoras, pode-se ter a ideia equivocada de que, no caso, basta contratar seguro para todos os problemas estarem resolvidos. Não é por aí.
Uma apólice de seguro é capaz de minimizar uma perda, mas ela não é capaz de evitar a perda. No caso dos eventos de origem climática, a seguradora pode pagar a indenização após o evento, mas o seguro não tem como impedir que ele ocorra ou que as pessoas estejam no seu caminho.
O seguro é a última, e invariavelmente mais cara, ferramenta para proteger a sociedade. Todas as outras medidas anteriores, destinadas a evitar que um determinado evento cause danos, são mais eficientes e mais baratas do que a contratação de uma apólice. Assim, seguro só deve ser contratado para fazer frente aos danos com potencial para causar prejuízos de monta e inevitáveis por outros meios.
Mesmo nas nações mais desenvolvidas, onde a contratação de seguros para proteção contra quase todos os riscos é comum, nem sempre o cidadão se apoia numa apólice para fazer frente e eventuais perdas, decorrentes de eventos com forte probabilidade de ocorrer. O melhor exemplo é um terremoto que atingiu a região do vinho, na Califórnia. As indenizações atingiram quase R$ 1 bilhão, mas fizeram frente praticamente apenas às perdas sofridas pelas vinícolas. Ainda que sendo sabido que a Califórnia é sujeita a terremotos e a cobertura estar à disposição sem maiores dificuldades, a imensa maioria dos habitantes da região não tinha seguro contra terremoto.
Isto não melhora em nada a imagem do cidadão de país rico. Ao contrário, ao deixar de fazer seguro para um risco com alta probabilidade de se transformar em sinistro, os californianos mostraram que o ser humano é o mesmo, tanto faz onde. Há um grau de irresponsabilidade que não é domado, nem mesmo por séculos de educação, legislação rigorosa e a quase certeza dos prejuízos. O que vale ser salientado é que, no caso, não há alternativa para o seguro. Não há como delimitar a região habitável, não há como impedir a ocorrência dos terremotos e não há como prever onde eles irão ocorrer. Quer dizer, não há medida ao alcance do ser humano capaz de minimizar o risco.
Já no caso do furacão Katrina e dos danos sofridos pelos moradores da região de Nova Orleans a situação é diferente. Havia uma série de medidas eficazes que não foram implementadas, o que agravou os danos decorrentes do furacão. Além disso, em função do alto número de pessoas pobres, também havia baixa contratação de seguros.
As recentes nevascas que se abateram sobre a costa leste custarão bilhões de dólares e parte significativa dos prejuízos está coberta pelo seguro, o que, desde já, prognostica um ano com indenizações pelo menos tão significativas quanto as do ano passado.
No Brasil, infelizmente, nos aproximamos muito mais do retrato da Ásia. A maioria dos eventos de causas naturais do ano passado aconteceu lá, mas a Ásia não contrata seguros. Então, o valor das indenizações pagas mal e mal fez cócegas nas seguradoras.
Além disso, as políticas de uso e ocupação do solo não são famosas nem aqui, nem lá, o que, evidentemente, agrava um quadro que já é muito ruim. Não bastasse a frequência e a intensidade dos eventos de origem climática estarem aumentando, não há movimento mais sério das autoridades visando minimizar o potencial de danos à população. Ao contrário, sequer medidas simples, como limpar os bueiros, são tratadas com um mínimo de seriedade, resultando no alagamento de áreas que, de outra forma, poderiam ficar livre as águas.
É por isso que as seguradoras não se mostram entusiasmadas com este tipo de seguro. Elas não têm como agir preventivamente para resolver os problemas e não há nada a indicar que o governo pretenda fazer alguma coisa. Seguro é negócio. Quando a chance de perdas generalizadas é uma certeza inapelável, é melhor ficar fora.






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