April 28, 2026
Por Isabela Zampiron | Seguro Gaúcho
Eventos climáticos extremos nos Estados Unidos estão levando governos estaduais a buscar soluções fora do padrão para financiar a reconstrução e lidar com a escalada dos custos de seguros no país. A combinação de desastres mais frequentes, prejuízos bilionários e aumento dos prêmios tem pressionado o sistema e já começa a gerar respostas no campo regulatório e jurídico.
Quatro iniciativas se destacam nesse cenário. Connecticut propõe uma sobretaxa direta sobre apólices de seguro ligadas à indústria de combustíveis fósseis, enquanto Califórnia, Havaí e Nova York seguem o caminho judicial, buscando responsabilizar empresas petrolíferas pelos danos climáticos. A diferença entre as abordagens é relevante: Connecticut atua diretamente no mercado de seguros, ao passo que os demais estados tentam transferir custos por meio de ações judiciais.
A proposta de Connecticut prevê uma sobretaxa de 5% sobre apólices comerciais de propriedade e acidentes relacionados a empresas de combustíveis fósseis. O objetivo é financiar obras de infraestrutura, reforçar a resiliência das cidades e apoiar a população afetada por desastres. A medida surge como resposta a dois fatores combinados: o aumento dos eventos climáticos extremos e o encarecimento dos seguros em regiões mais expostas.
Organizações focadas em resiliência climática, como a Rebuild by Design, apoiam a iniciativa e apontam que uma sobretaxa de 2% em determinados seguros nos EUA poderia gerar até US$ 287 bilhões e que, apenas em Connecticut, esse modelo levantaria cerca de US$ 3,7 bilhões. O contexto ajuda a explicar a pressão: o estado registrou 11 desastres federais entre 2011 e 2024 e recebeu cerca de US$ 564 milhões em ajuda para reconstrução, com estudos indicando tendência de aumento tanto na frequência quanto no custo desses eventos.
Nem todos, porém, veem a proposta com bons olhos. Representantes do setor de seguros e energia alertam que o custo da sobretaxa pode ser repassado ao consumidor, elevando as tarifas de energia e serviços. O argumento central é que o custo do seguro tende a percorrer a cadeia econômica e chegar ao preço final pago pela população. Associações do setor também levantam possíveis questionamentos legais, como violação de princípios constitucionais e a cobrança sobre riscos que não estão necessariamente localizados no estado.
O debate ocorre em um momento político sensível. Os Estados Unidos formalizaram em janeiro de 2026 a saída do Acordo de Paris pela segunda vez, decisão justificada com base no impacto sobre a indústria de combustíveis fósseis e nos custos energéticos para o país. O movimento reforça o contraste entre políticas federais mais alinhadas ao setor energético e as iniciativas estaduais voltadas à adaptação climática.
O cenário americano sinaliza uma transformação relevante para o mercado: o seguro está deixando de ser apenas um instrumento de proteção individual para integrar o próprio financiamento da adaptação climática. À medida que eventos extremos aumentam a sinistralidade e prêmios sobem, governos passam a enxergar o setor como parte da solução para um problema que, até pouco tempo atrás, estava fora do radar das seguradoras.
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