May 28, 2026
Por Isabella Zampiron | Seguro Gaúcho
A 6ª edição do Conexão Futuro Seguro aconteceu nesta terça-feira (26) com presença expressiva: mais de mil participantes conectados simultaneamente ao webinar, além dos espectadores presentes em São Paulo acompanhando de forma presencial. O evento, organizado sob o tema "Seguros 2030: Inteligência, Conexões e o Novo Plano Diretor de Distribuição" discutiu os caminhos do mercado segurador brasileiro até o fim da década.
Primeiro painel: IA, regulação e o Connection Talk
O primeiro painel foi mediado por Boris Ber, presidente do Sincor-SP, e reuniu nomes de peso: Dyogo Oliveira, presidente da CNSEG; Alessandro Octaviani, Superintendente da SUSEP; José Adalberto Ferrara, presidente da Tokio Marine Seguradora; e Jorge Andrade, presidente da Capemisa Seguradora e da Capemisa Capitalização.
Dyogo Oliveira foi categórico ao comparar a IA ao surgimento dos computadores nos anos 1970 e 80: "Ou você vai aprender a usar isso, ou vai ter que se aposentar". Ele comentou sobre o movimento ludista, que destruía teares na Revolução Industrial com medo do desemprego, para argumentar que a tecnologia, historicamente, não elimina a atividade humana, mas a transforma.
Oliveira destacou que todas as seguradoras pesquisadas pela CNSEG já possuem projetos de IA em andamento, ainda que os resultados em redução de custos e aumento de negócios ainda sejam considerados tímidos. "O que a gente está vendo de inteligência artificial hoje é apenas uma pequena amostra do que vai acontecer nos próximos 5 a 10 anos", afirmou.
Oliveira também fez um alerta: lembrou que o metaverso prometeu revolucionar o mundo e não emplacou, mas defendeu que a IA é diferente por ser um conjunto amplo de tecnologias com aplicações reais e diversas. "O conselho é que comece a estudar, comece a aprender e não se apavore", concluiu.
Jorge Andrade, da Capemisa, complementou o raciocínio ao dizer que a IA já está presente no cotidiano, muitas vezes sem que as pessoas percebam. Para ele, a tecnologia permite ao corretor assumir um papel cada vez mais consultivo: "Ele vai, identifica os problemas, faz o diagnóstico e leva o produto necessário. Aquilo que o consumidor realmente precisa."
Já Alessandro Octaviani abordou três frentes regulatórias. Sobre as Associações de Proteção Patrimonial Mutualista (PPMs), defendeu que a resposta judicial repetida não estava funcionando e que era necessário criar um novo marco regulatório com tributação adequada, provisões e respeito ao consumidor. "Quem não trata bem o cliente não tem o direito de ficar nesse mercado", afirmou.
Octaviani também chamou atenção para a lacuna securitária revelada pelas catástrofes recentes: no Rio Grande do Sul, os danos chegaram a 100 bilhões de reais, mas apenas 6 bilhões estavam segurados. Em São Paulo, apenas 2% dos 4 bilhões em prejuízos causados pelos incêndios tinham cobertura. No Maranhão, a situação foi ainda mais crítica: 2 bilhões em danos por enchentes, com apenas 0,02% segurados.
Para enfrentar esse cenário, a SUSEP lidera um grupo de trabalho sobre seguro-catástrofe, com participação de seguradores, resseguradores e representações setoriais. O resultado, com 30 metas para uma estratégia nacional de resiliência financeira e securitária, está em fase final de consulta pública.
Segundo painel: O Novo Plano Diretor de Distribuição (PDMIS)
O segundo painel, apresentado pelo economista Claudio Contador, Ph.D. pela Universidade de Chicago e professor da ENS, trouxe um diagnóstico direto sobre os desafios estruturais do mercado de distribuição de seguros.
A apresentação foi organizada em torno da lacuna estratégica do setor. Do lado dos objetivos, foram destacados três pilares: a sobrevivência estratégica e superação das turbulências da próxima década; a sincronia financeira com a corretagem (com receita evoluindo no mesmo ritmo dos prêmios); e o protagonismo do corretor como foco central da distribuição.
Do lado do diagnóstico , os chamados "gargalos", o painel identificou três problemas críticos:
- Modelo Esgotado: o "Corretor Despachante" tornou-se funcionalmente obsoleto;
- Valor Transacional Zero: algoritmos já substituem tarefas burocráticas em milissegundos;
- Lacuna de Relevância: risco de marginalização por novos modelos de venda direta.
A essência do PDMIS apresentou o modelo em forma de diagrama, com a "Defesa do Consumidor" e a "Ampliação da Receita do Corretor" como eixos centrais, sustentados pela participação ativa dos corretores qualificados, pelo capital humano, por inovações e tecnologia, e pela diversificação de atuação em ramos pouco explorados e em outros serviços.
Terceiro painel: IA na Prática
O terceiro e último painel, apresentado pelo professor Celso Brandão, expandiu o olhar para o uso de IA no cotidiano, apresentando um infográfico que revela a distribuição atual do tempo do corretor de seguros:
- 30–35% em atendimento e suporte ao cliente;
- 25–30% em burocracia e processos administrativos;
- 20–25% em prospecção e vendas;
- 10–15% em gestão de sinistros e pós-venda;
- 5–10% em atualização técnica e treinamento.
Brandão também apresentou um modelo de quatro estágios para a adoção de IA nas corretoras:
- Curiosidade e Exploração: identificar oportunidades de alto impacto (exemplo: Shadow AI);
- Assistentes e Ganho de Produtividade: automações que aumentam a produtividade do dia a dia (exemplo: Governança & Letramento);
- Casos de Uso: desenvolvimento e validação de casos com foco em resultados (exemplo: Reconhecimento de novas possibilidades);
- Escalonamento Estratégico: integração da IA a produtos e processos em larga escala (exemplo: Agentes e integração em produtos).
O modelo foi apresentado como um ciclo contínuo de descoberta, implementação e expansão "que transforma potencial em resultados reais e sustentáveis", segundo a apresentação.
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