June 3, 2026
Por Isabella Zampiron | Seguro Gaúcho
O mercado de seguros está diante de uma mudança de comportamento que não tem volta. Consumidores acostumados à fluidez dos bancos digitais, dos marketplaces e dos aplicativos de mobilidade passaram a exigir o mesmo nível de experiência de suas seguradoras, e o setor começa a responder com uma aposta crescente no chamado super app: uma plataforma única capaz de concentrar serviços, benefícios e atendimento no mesmo ambiente.
"Estamos vivendo uma segunda onda de transformação digital no mercado segurador", avalia Gitano Gama, CEO da Stations Cloud, empresa especializada em super apps corporativos. "A primeira foi focada em digitalizar processos e reduzir burocracias. Agora, o foco está na experiência do cliente."
Uma segunda onda
Por anos, as seguradoras se relacionavam com o segurado em dois momentos bem definidos: na renovação da apólice e no momento do sinistro. A lógica era transacional, e o aplicativo, quando existia, servia apenas como um portal de consulta. Esse modelo começa a mostrar sinais de esgotamento diante das expectativas de uma base de clientes cada vez mais habituada à fluidez dos bancos digitais e dos marketplaces.
O movimento em direção ao super app não é novo no setor financeiro, mas demorou mais para chegar aos seguros. Gama aponta razões estruturais: a complexidade regulatória, os sistemas legados e uma cultura de produto historicamente voltada à venda, não à retenção. "O que está acelerando é a necessidade de aumentar o engajamento. O consumidor já se acostumou com experiências integradas e passou a esperar o mesmo das seguradoras."
O que entra no app
A lista de serviços que as seguradoras estão priorizando concentrar em um único ambiente vai muito além da gestão de apólices e abertura de sinistros. Telemedicina, assistências residenciais e automotivas, abastecimento em postos conveniados, programas de desconto em farmácias, cashback, clubes de vantagens, serviços de bem-estar e até benefícios para pets já fazem parte do portfólio dessas plataformas. A lógica, segundo Gama, é direta: quanto mais valor o cliente percebe no dia a dia, maior tende a ser sua fidelização.
A inteligência artificial entra nesse contexto como camada de personalização. Algoritmos já permitem identificar padrões que sinalizam risco de cancelamento ou queda de engajamento e acionar ações preventivas antes que o cliente deixe a base. "A IA permite personalizar comunicações, recomendar benefícios mais relevantes para cada perfil e identificar momentos importantes da vida do cliente", diz o empreendedor. "O resultado é uma experiência mais relevante, que aumenta a frequência de uso e a permanência na base."
A barreira é cultural
Apesar do apetite crescente, a implementação enfrenta obstáculos que vão além da tecnologia. A principal barreira, na avaliação de Gama, é cultural. Muitas seguradoras ainda operam com estruturas organizadas por área ou produto, enquanto o cliente exige uma jornada única e sem costuras. Integrar sistemas legados, coordenar múltiplos fornecedores e definir uma estratégia clara de engajamento estão entre os desafios mais recorrentes relatados pelas empresas do setor.
Para quem ainda está nos primeiros passos, o empreendedor recomenda começar pela experiência, não pela tecnologia. A pergunta que orienta esse processo é simples, mas reveladora: por qual motivo o cliente voltaria ao aplicativo amanhã? "Se a resposta for apenas consultar uma apólice ou abrir um sinistro, o engajamento continuará baixo", diz. "O caminho é construir uma proposta de valor recorrente, que faça parte da rotina do cliente. A partir daí, a tecnologia se torna um habilitador."
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