Apólices deveriam ter o campo ‘Nome Social’, para que uma transsexual/travesti não se sinta constrangida e desconfortável em relação aos funcionários das seguradoras ou aos corretores
Temas como diversidade e inclusão são cada vez mais debatidos. No Congresso, por exemplo, umas das pautas mais quentes é sobre uma lei que criminalize a homofobia. A premiação do Oscar, realizada na madrugada de hoje (25); foi considerada a mais inclusiva da história, na qual 15 mulheres e 7 negros saíram com estatuetas. A pauta se estende ao mercado de trabalho e, sobretudo, ao setor segurador, que lançou no fim do ano passado, uma entidade específica para tratar da causa, o IDIS.
Uma pesquisa da Escola Nacional de Seguros indicou que as mulheres representam 56% dos profissionais da área, contra 44% de homens. Nos cargos executivos, a participação feminina cai para 28% e a dos homens sobe para 72%. Esses números conversam com todo o mercado de trabalho. Segundo um estudo do IBGE, mulheres com ensino superior completo recebem cerca de 63% do que os homens na mesma situação. Já, de acordo com uma pesquisa do Instituto Ethos, realizada em 2016, pessoas negras ocupam apenas 6,3% de cargos na gerência e 4,7% no quadro executivo, embora representem mais da metade da população brasileira.
“O setor de seguros, em especial, é um dos mais conservadores e atrasado no que diz respeito a igualdade”, afirma Alexandre Passarello, fundador da Corretora Inclusiva. “Se analisarmos as seguradoras, podemos contar nos dedos quais têm mulheres, LGBTQI+, negros, deficientes, tatuados e/ou anões em seus quadros diretivos e/ou presidência e/ou gerência”, continua. Para ele, não são discutidos temas de inclusão na maioria das companhias do setor. “O assunto é um tabu que ainda deve ser colocado em pauta em reuniões, não só com a base, e sim com todos os pilares, começando pelo topo”, diz.
O executivo aponta que outra medida que deve ser colocada em prática é a analise temas delicados, como a disponibilização e autorização do uso do banheiro feminino para transsexuais; além de oportunidades em seleções de igualdade. “Deve haver cotas em todas as áreas, para que se diminua a desigualdade, e, também, palestras sobre o tema, além da distribuição de cartilhas e Informativos para alertar sobre os casos de assédios e discriminações”, propõe Passarello.
Um estudo com 170 empresas realizado pelo Hay Group no Brasil identificou que apenas 5% das empresas brasileiras procuram saber como seus funcionários percebem o ambiente de diversidade no dia a dia de trabalho. Na Europa e em países desenvolvidos, o número chega à casa dos 20%. “É necessário que as empresas percebam a realidade de hoje, que é a heterogenia. É preciso que elas estejam ligadas às tendências da sociedade e de seus colaboradores. Por isso, precisam realizar a troca de boas práticas para construir um setor mais inclusivo e diverso”, salienta Marusia Gomez, CEO da Ikê Assistência Brasil. “Companhias que exercitam a diversidade tendem a ter melhores desempenhos que as que não o fazem”, diz.
O estudo do Hay Group ainda mostrou que aproximadamente 76% dos funcionários das empresas que se preocupam com a diversidade reconhecem que têm espaço para expor suas ideias e inovar no trabalho. Já nas empresas que não têm a diversidade como pauta da agenda, esse número cai para 55%.
“Companhias com altos índices de diversidade de gênero e etnia têm 33% mais probabilidade de obterem resultados financeiros acima da média do seu segmento”, revela a executiva. Ela ainda reforça que, nas empresas onde a diversidade é reconhecida e praticada, a existência de conflitos chega a ser 50% menor do que em outras organizações. “Temos um turnover de apenas 4% na Ikê. Isso é resultado da nossa política de diversidade e inclusão”, comemora.
Segundo relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB); no 1º quadrimestre de 2017, 117 pessoas foram assassinadas por causa de discriminação sexual no País. O número representou um crescimento de 18% em relação ao mesmo período em 2016. A realidade é que o Brasil é um dos países que mais mata homossexuais no mundo (1 a cada 25 horas); de acordo com o relatório.
Vale lembrar que, em novembro de 2018, foi criado o Instituto para a Diversidade e Inclusão no Setor de Seguros (IDIS). “Estamos todos otimistas em relação ao Instituto, pois ele vista promover a troca de ideias e boas iniciativas dentro do nosso mercado”, lembra Marusia.
Produtos
O mercado vem, aos poucos, incluindo produtos específicos para minorias em suas carteiras. Hoje, há seguros com coberturas voltadas especificamente para as mulheres e o público LGBTQI+, por exemplo. Mas, para Passarello, ainda há muito o que se explorar. “Foram criados produtos com o objetivo de diminuir a desigualdade e a discriminação, mas que não foram bem divulgados”. Ele acrescenta que a métrica usada para o desenvolvimento e adaptação de produtos existentes para esse público deveria ser desenvolvida por pessoas que se incluem e se enquadrem no perfil, ou seja, “produtos para mulher: mulheres; para LGBTQI+, profissionais que se reconhecem como tal; para deficientes e negros, idem”. Passarello diz também que, como LGBTQI+, entende que as apólices de todos os ramos deveriam ter o campo “Nome Social”, para que uma transsexual/travesti não se sinta constrangida e desconfortável em relação aos funcionários das seguradoras ou aos próprios corretores.
Entre outras coisas, o executivo sugere também que nos seguros para deficientes hajam atendimentos especiais como guincho com acessibilidade, táxis adaptados para esse segurados, etc. “Já, no atendimento às mulheres, deve se priorizar profissionais também do sexo feminino, inclusive para minimizar o efeito ‘descortês’ que alguns homens praticam durante a abordagem”, explica.
“A sociedade está cobrando e iniciando um movimento de mudanças. É possível que o setor de seguros acompanhe essa caminhada”, opina Marusia. “Na Ikê, por exemplo, 54% do quadro de funcionários é composto por mulheres, esse percentual sobe para 66% na alta gestão, e eu sou uma CEO mulher – então somos uma prova que é viável e eficiente”, finaliza.
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